CONFISSÕES DE UM ETERNO ADOLESCENTE

Guto Jimenez é o novo reforço do time Pense Skate. Confira a entrevista exclusiva.

Entrevista por Rennê Nunes

PS-Cara, antes de tudo, quero dar as boas  vindas em nome de toda equipe e também dizer  que é motivo de orgulho poder trocar com um camarada que ama o skate e o Rio de Janeiro, talvez em proporções bem parecidas.
GJz- Menos, Rennê, menos... (risos) Eu é que sinto um puta prazer e um orgulho imenso em poder fazer parte dessa equipe talentosa, que tá levando adiante a árdua batalha que é fazer um veículo exclusivo do skate carioca. Como sou um dos pioneiros nessa área, é como se uma injeção de ânimo tivesse sido aplicada na veia do tiozinho aqui... Agora, que tal a gente parar com a rasgação de seda e trabalhar um pouquinho, heim? (risos)

PS- Além de dar as boas vindas, convido você a falar pra galera o que pretende fazer por aqui.
 GJz- Olha a enrascada que você me mete, eu ensinar ao padre a rezar a missa... (risos) Quero passar um pouco da minha visão peculiar sobre o skate, minhas experiências, contar umas histórias, falar de cenários que não são tão vistos com frequência na imprensa. Por exemplo, você sabia que é no Rio onde mais se vendem longboards, estatisticamente falando? Pois é, mas só se fala praticamente no street. Isso é uma limitação que não combina com o skate, tão multifacetado como um diamante. O Rio tem uma biodiversidade de modalidades e skatistas que não têm espaço na mídia de alcance nacional, por motivos de mercado, falta de espaço ou de interesse; então, se eu pudesse resumir, diria que vou "levantar a bandeira" do skate do Rio da melhor maneira possível. Veja bem, eu falei SKATE, e quando falo nisso penso não só no street, mas no vert, no downhill, no slalom, no freestyle e até nos longs de calçadão-de-fim-de-semana.

PS- Além da  Pense Skate, o que faz hoje?  Por onde tem andado de skate?

GJz- Como profissão, sou o responsável pelas comunicações de uma plataforma de petróleo da Pride do Brasil, fundeada na Bacia de Campos e trabalhando 14 dias por mês e folgando outros 14 dias. Quer dizer, folgando é modo de me expressar, pois sou muito inquieto pra ficar quieto: agilizo textos e fotos pra TRIBO e Venice, revistas das quais sou o correspondente carioca, e faço outras correrias de distribuição e comercial da editora. Além disso, sou locutor de eventos, escritor, radialista e um artista plástico iniciante - pois é, rapaz, comecei a fazer umas coisinhas também! Quanto ao skate, procuro andar em ladeiras - onde estão as minhas origens no carrinho, aliás - como as Paineiras, Vista Chinesa e Sumaré, em pistas que têm curvas, pra não perder de vez o jeito dos carvings e as linhas, e muito de vez em quando vou à Pirâmide fazer uma sessãozinha de street anos 80. Sabe como é, aquela coisa de boneless, wallrides & inverts no chão que a molecada só não ri na minha cara porque tem um certo respeito por mim ou pela minha idade. (risos)


PS- Gostaria também que falasse um pouco de sua história no skate. Lembro que você pode optar por um breve relato, pois receio que não temos espaço suficiente em nosso humilde servidor para uma senhora biografia de 31anos de skate. rs
GJz- O meu primeiro skate eu ganhei do meu pai no dia 25/11/1975, quando ele me deu o "brinquedo" que eu queria só pra que eu não usasse os dos meus vizinhos... Pai orgulhoso o meu, né não? (risos) Mal sabia ele! (risos) A galerinha do prédio onde eu morava na rua Paissandu, no Flamengo, já fazia umas linhas descendo as rampas da garagem; dali pra Pirâmide foi um pulo, e de lá pro Parque Guinle foi outro. Como curiosidade pra galera, eu dropava as ladeiras descalço, sem camisa e com os chinelos Katina Surf nas mãos pra dar uma proteção... Quando penso nisso hoje em dia, me dá arrepios! (risos) A partir de 1979, fiz parte da equipe da Pier como freestyler, e uns 4 ou 5 anos depois comecei a me envolver com a militância do skate. Eu, Cesinha, Calmon e outros fundamos a S.U.A.T. (Skatistas Unidos Anarquia Total), só pra fazer campeonatos numa era em que não se tinha nada - só o amor pelo skate dos poucos praticantes que restavam. Nossos eventos tinham a seguinte divulgação: "Sem palanque, sem música e nem juízes - só skate". Virei redator na Visual Esportivo em 1984, editor de skate no ano seguinte e, a partir daí, nunca mais parei de colaborar em revistas ou de fazer os meus próprios zines. Não é por nada não, mas sou o mais antigo envolvido na imprensa escrita em atividade; mais antigo do que eu no meio de imprensa, só o Cesinha, outro pioneiro que me deu a primeira chance de publicar um texto. O resto é história, que vem sendo um pouco escrita todos os dias.

PS- No último e-mail que trocamos descobri que você foi o primeiro brasileiro a competir no mundial, em Munster, em 1987, competindo contra Steve Caballero, Lance Mountain, Mark Gonzales e outros "monstros". Correu no street pro e ficou em 14o. Fale dessa experiência.
GJz- Bom, eu trabalhava na Vasp e tinha direito a duas passagens internacionais por ano no 0800. Eu achava que iria de novo pros EUA quando li na Thrasher que o campeonato que era europeu passaria a ser mundial; escrevi pros caras, recebi a resposta, agilizei com a revista Yeah! (pra qual eu colaborava na época) e com a No Limits (brodagem em forma de equipamentos pra vender lá) e fui. Quando cheguei, tomei um susto: no ginásio, em plena 5a-feira, tinham umas 5.000 pessoas assistindo aos treinos - e uma bandeira do Brasil lá no fundo, no meio das européias e ao lado da americana. A ficha só começou a cair quando peguei uma programação do campeonato e o meu nome tava lá, como um dos destaques internacionais ao lado dos já citados e do Hosoi, Gator e outros que estavam sendo esperados no evento. Quando me identifiquei como sendo "o brasileiro", parecia que era Moisés diante do Mar Vermelho - todos os caminhos se abriram (risos). Fui levado a uma sala e, 10 minutos depois de ter chegado ao ginásio, estava dando uma entrevista pra Deutsche Welle junto com o Cab, Gonz e Lance, além do alemão Claus Grabke transmitida ao vivo pra toda a Alemanha e Áustria. Aí fudeu, caíram umas 10 fichas! (risos) Fora o fato de virar alvo de entrevistas de toda a Europa, percebi que quando falavam do "der Brasilianer" (=eu), poderiam estar falando "o marciano" tamanha era a curiosidade em torno do que rolava por aqui. Bem, na hora da competição eu ferrei o joelho na 2a volta, mas a 1a havia sido muito boa e acabei em 14o no meio de mais de 30 competidores. Tudo bem que tinham uns 10 freestylers no meio, mas o que é meu ninguém tira! (risos)

PS- Você pertence a uma geração que criou os alicerces para cena do skate brasileiro que vemos hoje. O que mudou de lá pra cá?
GJz- Ai ai ai, coitado do seu servidor... (risos) "Arquiteto do skate nacional" é meio forte, mas vamos lá... Vamos resumir?! MUDOU TUDO! E não falo só das modalidades ou das manobras em si, mas até mesmo da maneira que se encara o skate. Virou profissão, uma escolha de carreira, e acho que isso é um fato que não se volta atrás. O que a galera precisa saber é que, quando se anda por obrigação, não é tão divertido como o era antes; pensa-se muito no bônus de ser pro - ganhar $$, viajar, competir, etc -, mas esquece-se do ônus, que é deixar de se divertir tanto sobre o skate. Nisso, a alma do skatista mudou da água pro vinho também, que é o que mais lamento. Tem o lado bom, que é o respeito e a admiração do grande público; de "coisa de criança e mania de adolescente" virou tema de novela juvenil, de anúncio de tv, roteiro de filme... Nesse ponto, o da exposição em mídia, mudou radicalmente, mas receio que quando essa geração de hoje virar quarentona, como a minha, não vai olhar pra trás e rever o filme com tanto gosto como nós. Afinal, a gente não tinha compromisso com nada além da diversão em si. 

Como você vê a cena do skate local do Rio de Janeiro? E, pra finalizar, deixe um breve recado pra galera que ajuda a construir essa cena.
GJz- Agora to com pena do seu servidor mesmo! (risos) O skate do Rio sempre padeceu de um mal crônico, o círculo vicioso que corrompe, estraga e o impede de crescer. As marcas são pequenas e informais, vendendo pras lojas com meia-nota ou deixando em consignação - isso ainda rola em 2007, um absurdo! As lojas compram dessas marcas, porque é feito sem nota, por debaixo dos panos, e fica "bom pra todo mundo". Nisso, as marcas de fora não vendem muito por aqui (com raras exceções) e não se interessam em investir num mercado que tem skatistas pra cacete, mas produz vendas ridículas - e,meu camarada, "money talks and bullshit walks". No mundo dos negócios, não existe almoço de graça... e os skatistas é que pagam o pato. Queremos salmão - e nos servem sardinhas... Existem exceções, é claro, mas a regra geral é essa. A galera tem que parar de olhar o próprio umbigo e parar de querer aparecer sem merecer. Mirem-se nos exemplos do nosso Rennê, ou do Funil ( N.E.S.), "Pai" Gilberto, Carlos Grilo, Felipe Cobra, Paulo 021, Cesinha ou até no meu mesmo: FAÇAM ACONTECER! O Rio precisa de menos "boas intenções" e pretensão, e de mais AÇÃO. Pra quem quer aparecer, sugiro buscar uma outra atividade pra parasitar. O skate carioca é um doente na UTI que tá sendo tratado com aspirina. Tudo vai passar, mas o skate vai continuar. E eu vou continuar andando, tomando as minhas cervas e rindo de tudo isso. Não to nem aí pro hype, nome em revistas, homenagens e sei lá mais o quê - só quero andar de skate. É amor mesmo, e quem ama o que quer que seja vai me entender.   

Veja algumas as fotos: